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A Serra de Careom, diversidade vegetal em perigo PDF Imprimir Correo-e
careon_3.jpgA cabalo entre as províncias d'a Corunha (Melide, Santiso e Toques) e Lugo (Friol e Palas de Rei) situa-se a Serra de Careom, incluida na Rede Natura 2000. É difícil achar em Galiza um espaço que, ao mesmo tempo, seja tam desconhecido, possua tanto interesse e esteja tam ameaçado.

Um artigo de Celestino Quintela, investigador do Dpto. de Botánica da USC e coordenador da Federaçom Ecologista Galega (FEG).

 

Entre os valores deste espaço[1], de 6500 Ha de superfície, podemos destacar a presença de diferentes hábitas prioritários para a UE, além de diversas espécies animais de interese como o moucho comum (Athene noctua), o lagarto das silvas (Lacerta schreiberi) ou a saramaganta galega (Chioglossa lusitanica); mas especialmente, este espaço (quase desconhecido para a populaçom galega) é considerado no "Atlas y Libro Rojo de la Flora Vascular Amenazada de España" (AFA) um dos pontos "mui importantes" para a conservaçom da flora ameaçada no estado[2].

Para completar os valores desta área, no LIC do Careom podemos topar solos derivados das serpentinas, que suponhem de por sí um valor engadido, na sua condiçom de substratos geológicos minoritários a escala europea e mundial.

Mas, quê som os solos serpentínicos?

Dum jeito resumido, podemos dizer que as serpentinas som um tipo de minerais que de jeito natural contenhem elevadas concentraçons de metais pesados, nomeadamente níquel (Ni), cromo (Cr) e cobalto (Co). Aliás, estes solos tenhem umha elevada quantidade de magnésio (Mg), em relaçom ao cálcio (Ca). Outro nome para estes solos é o de solos ultramáficos (porque tenhem grandes cantidades de magnésio e ferro)

Os minerais serpentínicos son de tipo metamórfico, é dizer, gerados por transformaçom doutros minerais já existentes. Os processos que dam lugar à génese das serpentinas sempre tenhem lugar em presença de água marinha. Ou seja, que as áreas serpentínicas que topamos no cerne da Galiza, a umha altura média de 500 m sobre o nível do mar, originárom-se realmente nalgum lugar que estava baixo das águas!

O nome de serpentinas vém da época romana, já que estes minerais adoitam ter cores verde-azulentas, semelhantes à pel das serpes. Esta semelhança fixo que as serpentinas fossem empregadas polos romanos como remédio contra o veleno das serpes,... nom sempre com resultados positivos!!

Quê tenhem de especial estes solos?

A presença dos metais pesados, junto com a elevada relaçom Mg/Ca, fai que as plantas sofram um grande estrés edáfico e de nutrintes, bem pola toxicidade de Ni, Cr e Co ou bem porque o Mg compite com o Ca polos lugares de absorçom nas raízes.

Esta toxicidade edáfica fai difícil o desenvolvimento da vegetaçom, de jeito que finalmente nas áreas serpentínicas toparemos normalmente solos rochosos, com umha camada orgánica mui fina ou inexistente, o que determina que sejam solos que nom retenhem apenas água, sumando-se o estrés hídrico a esse estrés edáfico do que falamos.

Além de ser solos minoritários (menos do 2% da superfície de Europa), as áreas serpentínicas som especialmente ricas em endemismos botânicos, isto deve-se a que associado ao processo de colonizaçom destas áreas tenhem lugar processos microevolutivos relacionados com a apariçom de mecanismos de tolerância aos metais, tolerância ao estrés hídrico, ... que podem determinar a apariçom dum ecótipo (ou variedade) dumha espécie com umha distribuiçom mais ampla ou mesmo a origem dumha nova espécie nestas áreas serpentínicas. Isto ocorre na Serra do Careom, tal como veremos no seguinte apartado, mas também na serra da Capelada (a outra área ultramáfica da Galiza, ver figura 1).

careon_1.jpg 

Figura 1: Mapa do NO da península ibérica, onde se  sinalam (em negro) as áreas serpentínicas de Galiza  (Careom e Capelada) e Portugal (Trás-Os-Montes).

Quê plantas ameaçadas vivem neste LIC?

O LIC Serra do Careom tem umha grande riqueza botânica, estando presentes várias espécies únicas, que só poderemos topar neste lugar, como:

Santolina melidensis[3], umha mata da família das Compostas, está catalogada como "En Perigo de Extinçom" no Catálogo Galego de Especies Ameazadas (CGEA) além de estar incluída no AFA com a categoria "Em Perigo Crítico".

Medra sobre solos esqueléticos mui sensíveis aos cámbios de uso derivados da concentraçom parcelária levada a cabo na zona. Estes cámbios tenhem provocado praticamente a desapariçom de mais do 50 % da populaçom nos últimos anos.

Armeria merinoi[4], emparentada com a erva de namorar da costa, está catalogada como "Em Perigo de Extinçom" no CGEA namentres aparece no AFA na categoria de "Em Perigo Crítico".

Medra em solos hidromorfos desde os altos do Careom até o río Ulha, sendo nas proximidades deste onde está mais ameaçada. Nesta zona está a sofrer un contínuo descenso do número de indivíduos e na sua área de presenza por mor da transformaçom do seu hábitat.

Leucanthemum gallaecicum[5], umha margarida de pequeno tamanho endémica deste afloramento serpentínico, também catalogada como "Em Perigo de Extinçom" no CGEA e com a categoria "Em Perigo" no AFA.

Localiza-se em 4 populaçons, sendo a mais importante a do extremo meridional do afloramento. Habita geralmente sobre solos de escasa profundidade nos pasteiros e nos claros das matogueiras. Na actualidade a espécie está seriamente ameazada de extinçom devido à actividade humana, especialmente às transformaçons agrárias.

Outros endemismos botânicos galegos presentes na Serra do Careom som Centaurea janeri subsp gallaecica e Sagina merinoi. Aliás som de destacar numerosas plantas que, se bem nom som únicas deste espaço, a súa distribuiçom na Galiza está restringida a estes solos, e a presença neles representa unha disjunçom respecto da sua área de origem: Alyssum serpyllifolium, Aster aragonensis, Seseli montanum, Armeria langei subsp daveaui, Asplenium adiantum-nigrum subsp. corumnense, Erica scoparia entre outras.

Por quê esta grande riqueza de espécies endémicas ou ameazadas?

Além das implicaçons microevolutivas que supom a colonizaçom das áreas serpentínicas polas plantas, neste espaço dá-se umha confluência de factores climáticos e de aproveitamento tradicional que determinan um ambiente em mosaico, onde existe um lugar (um "nicho ecológico") para plantas com diversas necessidades de humidade, insolaçom, tolerância aos metais do solo... que conformam umha das comunidades de matogueira das mais ricas da flora galega. Os aproveitamentos tradicionais contribuiam à heterogeneidade do hábitat, e por exemplo, ao cortar (ou mesmo com lumes de baixa intensidade) áreas mais evolucionadas dominadas por urçes (como Erica scoparia) abriam-se espaços onde espécies mais pioneiras, caso da Santolina, podiam germolar.

Quais som as principais ameaças que está a sofrer o LIC arestora?

A Serra do Careom é um lugar onde se fam visíveis os efectos dum modelo de desenvolvemento produtivista e insustentável, totalmente incompatível com a conservaçom dos seus valores. Além disto, a incomunicaçom entre conselharias e a falta dum tratamento transversal dos temas ambientais na administraçom fai que além da agressom ambiental se esteam a esbaldar os fundos públicos, já que ao tempo que a Conselharia do Ambiente financia Planos de Conservaçom para essas espécies ameaçadas, a Conselharia do Rural subvenciona labores de transformaçom das matogueiras que suponhem de facto a destruiçom irreversível das espécies e dos hábitats a proteger.

De jeito resumido, faremos um percurso de norte a sur sinalando os principais impactos:

- Na serra entre os concelhos de Toques e Palas de Rei construiu-se um parque eólico, aínda que a principal ameaza segue a ser a transformaçom das matogueiras em plantaçons florestais, principalmente de pinheiro.

- Na zona central do LIC, a construçom e expansom do parque empresarial de Melide, junto com a futura autovia Santiago-Lugo, estám a supor as principais ameaças para a flora.

- A zona sul do LIC, en concreto, a correspondente à parróquia de Santa Maria de Barazom (Concelho de Santiso), umha das mais ricas no relativo à presença de endemismos, está a sofrer as maiores agresons. Logo dum processo de concentraçom parcelária aprovado no 2001, esta área foi incluída dentro das Zonas de Especial Interese Agrário pola Lei galega 7/2007 (a do Banco de Terras de Galiza). Desde o 2001 esta-se desenvolvendo um processo de destruiçom das matogueiras e da flora ameaçada, sendo substituidas por pasteiros ou por plantaçons florestais de Eucaliptus globulus ou Pinus radiata. Esta agressom ambiental tem continuado a pesar de que a Junta de Galiza tem recebido desde o 2001 informes técnicos alertando dessas transformaçons, e incluso logo do cámbio de governo o processo de transformaçom continua (ver figura).

 careon_2.jpg

Figura 2: Processo de transformaçom das serpentinas na área de Barazom (Santiso). As cores correspondem-se ao estado das parcelas em junho de 2006.

Ao longo do 2006 e 2007, a FEG tem denunciado publicamente estas agressons além de ter apresentado esta problemática num congresso científico internacional celebrado em Santiago de Compostela. Na actualidade estamos a preparar um escrito para solicitar a intervençom do Fiscal do Ambiente ante este possível delicto ambiental. As pessoas interessadas em colaborar na proteçom desta área podem contactar-nos em Este enderezo de correo-e está protexido contra spam bots, necesitas ter o Javascript activado para podelo ver .

Para saber máis:

Atlas y Libro Rojo de la Flora Vascular Amenazada de España. 2004. VV.AA. Ministerio de Medio Ambiente. (pode-se consultar on-line

Serpentine and its vegetation : a multidisciplinary approach. 1987. Robert Richard Brooks. Dioscorides Press, Oregon (pode-se consultar na biblioteca da faculdade de Farmácia da USC).

Desde o web da FEG podem-se descarregar dous pósters informativos sobre os valores e ameaças do LIC, elaborados em colaboraçom com investigadores da USC.



[1] informaçom institucional sobre este LIC.

[2] capítulo do AFA relativo às áreas de interese para a conservaçom da Flora Ameaçada de Espanha.

[3]  Ficha (em PDF) de Santolina melidensis em AFA

[4 Ficha (em PDF) de Armeria merinoi em AFA

[5]Ficha (em PDF) de Leucanthemum gallaecicum em AFA

 
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