Skip to content
 

Enquisas

Para superar a crise...
 
"Estamos a fazer do planeta cobaia" PDF Imprimir Correo-e
margarida-silva.jpgMargarida Silva é professora na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa e porta-voz da Plataforma Transgénicos Fora. Nesta entrevista,  fala para "Cos Pés na Terra" dos "sete pecados mortais" dos cultivos transgénicos e de como a normativa europeia não garante o direito à escolha e a proteção da saúde e do ambiente.

Uma entrevista por Xosé Veiras.

-Que organizações fazem parte da Plataforma Transgénicos Fora? Que actividades realiza a Plataforma?

Neste momento a Plataforma Transgénicos Fora é composta por 11 entidades:

• ARP, Aliança para a Defesa do Mundo Rural Português

•ATTAC, Associação para a Taxação das Transacções Financeiras para a Ajuda ao Cidadão

• CNA, Confederação Nacional da Agricultura

• Colher para Semear, Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais

• FAPAS, Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens

• GAIA, Grupo de Acção e Intervenção Ambiental

• GEOTA, Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente

• LPN, Liga para a Protecção da Natureza

• MPI, Movimento Pró-Informação para a Cidadania e Ambiente

• QUERCUS, Associação Nacional de Conservação da Natureza

• SALVA, Associação de Produtores em Agricultura Biológica do Sul

Quanto a actividades, são muito diversas: fazemos tudo o que tem a ver com transgénicos, dentro das nossas capacidades. Desde sessões de esclarecimento em escolas, a comunicados de imprensa, a reuniões com o governo, é de tudo um pouco.

-A libertação ao ambiente de OGM apresenta diversos riscos para o ambiente e a saúde humana. Quais acha que são os mais preocupantes? Há efeitos negativos cientificamente comprovados após mais de 10 anos de cultivo de OGM no mundo?

Eu diria que a engenharia genética na agricultura sofre de sete "pecados mortais."

- É insustentável, tal como a agricultura convencional (consome demasiada energia, água e químicos, produz demasiada poluição, causa erosão do solo, etc).

- É irreversível. Tal como referido na própria directiva 2001/18 sobre OGM, "Os organismos vivos, quando libertados no ambiente [...] são susceptíveis de se reproduzir [...] Os efeitos dessas libertações no ambiente podem ser irreversíveis." Que direito temos nós de fazer coisas que, mesmo que dê errado, as gerações futuras não vão poder desfazer?

- As plantas transgénicas são patenteadas. Quando o agricultor deixa de poder ser o guardião da semente estamos a falar do fim da agricultura tal como nós a conhecemos.

- A contaminação é inevitável e, tal como disse o actual ministro francês do ambiente, "Quanto aos OGM, estamos todos de acordo: não se consegue controlar a contaminação."

- A engenharia genética parte do princípio que o gene é uma estrutura linear, cartesiana, compartimentalizada, que pode ser tratada como um programa informático: funciona da mesma forma seja qual for a célula em que esteja instalado. Mas a genética não é como o software, e o funcionamento do gene depende do ambiente que o envolve. Por isso, ao "instalar" um gene num novo ambiente molecular não podemos ter qualquer garantias sobre como ele se vai portar. Isto é jogar à roleta com a nossa base alimentar!

- Qualquer tecnologia nova acarreta, potencialmente, riscos novos e, por definição, impossíveis de antecipar. Tal como reconheceu Pedro Fevereiro, o mais visível de todos os defensores portugueses de transgénicos, "Testar completamente o impacto ambiental e na saúde dos OGM pode demorar 50 a 60 anos..." E nenhum transgénico agora em circulação foi testado sequer 60 meses. Por isso estamos a fazer do planeta cobaia. Se alguma coisa correr mal, o erro vai sentir-se à escala mundial.

- A Comissária Europeia de Agricultura, Mariann Fischer Boel, fez uma promessa à esmagadora maioria dos europeus que não queriam que os transgénicos fossem aprovados: "Os OGM são aprovados para cultivo [...] mas ao mesmo tempo os agricultores têm o direito de cultivar não transgénicos e os consumidores de continuar a comprar não transgénicos. Todos devem ter liberdade de escolha". {quotes} A liberdade de escolha está tão corrompida que na prática não existe: os transgénicos estão a ser encaminhados quase a 100% para rações animais, e os consumidores não têm direito a rotulagem que permita distinguir entre a carne (e leite, ovos, etc) dos animais que comeram e não comeram transgénicos.{/quotes}

-Há efeitos negativos cientificamente comprovados após mais de 10 anos de cultivo de OGM no mundo?

Em relação à questão sobre se há problemas já cientificamente provados, a resposta é sim. Eis uma lista de alguns desses artigos:

-Ewen et al (1999) Effect of diets containing genetically modified potatoes expressing Galanthus nivalis lectin on rat small intestine. The Lancet 354:1353-1354.

-Malatesta et al (2002a) Ultrastructural morphometrical and immunocytochemical analyses of hepatocyte nuclei from mice fed on genetically modified soybean. Cell Structure and Function 27:173-180.

-Malatesta et al (2002b) Ultrastructural analysis of pancreatic acinar cells from mice fed on genetically modified soybean. Journal of Anatomy 201:409-415.

-Malatesta et al (2003) Fine structural analyses of pancreatic acinar cell nuclei from mice fed on genetically modified soybean. European Journal of Histochemistry 47(4):385-388.

-Malatesta, Vecchio et al (2004) Ultrastructural analysis of testes from mice fed on genetically modified soybean. European Journal of Histochemistry 48(4):449-454.

-Netherwood et al (2004) Assessing the survival of transgenic plant DNA in the human gastrointestinal tract. Nature Biotechnology 22(2):204-209.

-Prescott et al (2005) Transgenic Expression of Bean r-Amylase Inhibitor in Peas Results in Altered Structure and Immunogenicity. Journal of Agricultural and Food Chemistry 53:9023-9030.

-Séralini et al (2007) New Analysis of a Rat Feeding Study with a Genetically Modified Maize Reveals Signs of Hepatorenal Toxicity. Archives of Environmental Contamination and Toxicology 52:596-602.

-Tudisco et al (2006a) Genetically modified soya bean in rabbit feeding - detection of DNA fragments and evaluation of metabolic effects by enzymatic analysis. Animal Science 82:193-199.

cs3-alimentos.jpg-Os procedimentos aplicados na União Europeia para a autorização do cultivo de OGM obedecem ao princípio de precaução e garantem a segurança para o ambiente e a saúde?

A resposta simples é não. O Princípio da Precaução diz-nos para actuar sem esperar pela prova científica final quando o impacto potencial é demasiado perigoso. Acontece que na União Europeia ja passámos por uma série de casos em que havia indicações sérias de impacto negativo dos OGM, sem haver prova final, e a Comissão passou ao lado. Não só não tomou nenhuma medida de precaução, como nada fez para obter as provas definitivas. Estamos a falar de situações graves, como nas experiências realizadas pela indústria em que morreram duas vezes mais galinhas no grupo que comeu o milho transgénico Chardon LL do que no grupo de teste. Este trabalho não foi científico, mas devia ter sido repetido por cientistas independentes. Nunca foi. Muitos outros exemplos poderiam ser aqui referidos.

-A indústria biotecnológica defende que os OGM são um contributo para a erradicação da fome e da má nutrição e para uma agricultura menos insustentável (redução no uso de agrotóxicos, maior eficiéncia na utilização do solo e da água).  A realidade confirma ou desmente estes argumentos?

Se servissem para aliviar o problema da fome, já deveríamos estar a ver resultados no país que mais os usa: os USA. Neste país, que cultiva transgénicos desde 1995 e em 2006 atingiu os 54 milhões de hectares, o número de esfomeados não baixou nem um pouco e continua nos 30 milhões. A fome existe devido à pobreza e falta de terra para autocultivo, não por falta de comida nas lojas. Mesmo que os transgénicos produzissem mais, não poderiam matar a fome a ninguém. Na verdade, as variedades de transgénicos em circulação nem sequer são próprias para alimentar humanos, servem é para fazer rações animais.

Quanto aos agrotóxicos vejamos o caso da soja tolerante a herbicidas, que é o transgénico mais cultivado no mundo. Qualquer pessoa compreende que, se uma variedade passa a ser capaz de aguentar herbicida, o agricultor pode aplicar muito mais herbicida do que antes. Neste caso o herbicida aplicado é o glifosato (nome comercial Roundup), que é carcinogénico. Por isso não vejo como é que pode ter havido melhoria nessa área. Quando à maior eficácia de utilização do solo e da água, não há nenhum transgénico no mercado que sequer se gabe de tais feitos.

-Parece evidente que os cultivos transgénicos são beneficiosos  para as poucas empresas multinacionais que os criam e comercializam mas, do ponto de vista dos agricultores, nomeadamente dos pequenos, são também um bom negócio?

Os agricultores perdem biodiversidade, perdem o direito de guardar semente e perdem a oportunidade de explorar respostas sustentáveis. Como é que poderia ser bom para eles?

-A semelhança do que tem vindo a ocorrer no resto da União Europeia, alguns municípios e uma região (Algarve) decidiram declarar-se Zonas Livres de Transgénicos em Portugal, declarações sem valor legal. Mas, a diferença da Espanha, em Portugal, mediante um procedimento aprovado pelo Governo nacional, os municípios podem proibir o cultivo de OGM nos seus territórios. Qual é a opinião da Plataforma sobre este procedimento?

A lei portuguesa é uma mentira descarada. Qualquer pessoa que ouça falar no assunto vai pensar que os municípios agora podem criar zonas livres em Portugal. Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Os municípios podem de facto declarar o seu território uma zona livre de transgénicos. Mas não podem impedir nenhum dos seus agricultores de cultivar transgénicos! Por isso, no dia em que um agricultor  começar a cultivar qualquer transgénico, a zona livre termina. Engraçado, não? É como se o governo fizesse uma lei para pagarmos impostos que fosse automaticamente anulada no momento em que uma pessoa não os quisesse pagar. É incrível, mas é assim a nossa lei.

Margarida Silva é autora do livro Alimentos transgénicos: um guia para consumidores cautelosos (Universidade Católica Editora, 2003). 

Para saberes mais:

Plataforma Transgénicos Fora

Alimentos transgénicos: um guia para consumidores cautelosos