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Da loucura dum pioneiro ao sucesso local e reconhecimento internacional PDF Imprimir Correo-e

Após observar a morte de pássaros e gado, assim como a intoxicação dum vizinho, indignado e preocupado com a saúde de seus trabalhadores, Dr. Carlos Franco decidiu converter à agricultura orgânica a fazenda de café herdada de seu pai numa época em que ainda não havia mercado para os cafés orgânicos. O lugar, Machado, não demorou em se transformar num centro de referência em cafeicultura orgânica. A organização local para a produção de café orgânico e de comércio justo melhorou o ambiente em Machado e Poço Fundo (Minas Gerais, Brasil), também a saúde, a economia e a autoestima das pessoas que vivem dele.

Um artigo de Maria Célia Martins de Souza, pesquisadora do Instituto de Economia Agrícola de São Paulo.


Machado e Poço Fundo situam-se na região Sul de Minas, no estado de Minas Gerais, delimitada geograficamente com a finalidade de valorizar a qualidade do café associada à sua origem. Esta região é hoje a maior produtora de café do país, responsável pela produção de grãos reconhecidos internacionalmente como de excelente qualidade, com bastante corpo e aroma, doçura característica e pouca acidez.

cafe_organico_brasil_1Foi no Sul de Minas, mais especificamente em Machado, que a cafeicultura orgânica começou oficialmente. O pioneiro, Dr Carlos Franco, da Fazenda Jacarandá, um engenheiro de família presbiteriana que já plantava café desde meados do séc. XIX, saiu ainda jovem do município para realizar seus estudos em São Paulo, onde morou por muitos anos. Quando herdou a fazenda de café de seu pai, decidiu manter a tradição da família e dedicar-se mais à cultura (FRANCO, 2005).

Com o contato mais estreito com a lavoura passou a observar uma série de problemas decorrentes do uso de agrotóxicos, como a morte de pássaros e de gado, assim como a intoxicação de um vizinho. Indignado e preocupado com a saúde de seus trabalhadores, com quem mantinha uma relação diferente , começou a diminuir o uso de agrotóxicos e a adotar práticas da agricultura orgânica em 1990, disposto a correr os riscos da conversão. No começo foi criticado por vários familiares, alguns deles agrônomos e também cafeicultores, que ainda não acreditavam na viabilidade do novo sistema.

Contribuíram para sua conversão para as práticas orgânicas os baixos preços que o mercado convencional pagava no início dos anos 1990, que não compensavam o uso de agroquímicos na lavoura, e o encontro com um parceiro comercial que valorizava a qualidade simbólica de sua produção. Dr Carlos podia ser considerado um produtor ideológico, tamanha sua convicção na cafeicultura orgânica e satisfação pessoal em adotar tais práticas. Não queria mais voltar ao sistema convencional, numa época em que ainda não havia mercado para cafés orgânicos.

A primeira exportação para o Japão foi feita em 1992, com 250 sacas de café verde, com a parceria da Organic Trading, de Curitiba. Pouco depois, o Dr Carlos recebeu a visita do comprador japonês, o Sr Nakamura, proprietário da Organic Coffee, uma pequena torrefadora japonesa ligada a uma cooperativa de consumidores de Fukuoka, que desejavam consumir alimentos produzidos com respeito ao meio ambiente e aos trabalhadores .{quotes} Além de conhecer a fazenda, o cafeicultor e os trabalhadores, Nakamura propôs estabelecer uma parceria de longo prazo, dentro dos princípios do mercado justo, reduzindo o número de intermediários e aproximando produtores e consumidores, o que deu ao produtor a segurança e estabilidade que ele precisava para continuar. {/quotes}

A parceria inclui não só a compra do café a preços favoráveis, mas também uma intensa troca de informações entre produtores e consumidores . O produto é vendido aos cooperados como ‘café Carlos’, e tem a sua foto junto com seus trabalhadores na fazenda, o que demonstra um forte interesse em valorizar a sua origem e identidade . São também realizadas visitas tanto na fazenda , como dos trabalhadores ao Japão. Com a morte do Dr Carlos em 2003, a parceria entre a torrefadora e a Fazenda Jacarandá continua, só que agora com os seus filhos e netos. A certificação orgânica é feita atualmente pelo IBD —Instituto Biodinâmico, que tem reconhecimento no mercado japonês, que exige o selo JAS.

{quotes} A experiência inovadora do pioneiro Dr Carlos rompeu com a resistência de seus familiares cafeicultores, que passaram a compartilhar dos mesmos ideais e acabaram convertendo suas lavouras para o cultivo orgânico a partir de 1994.{/quotes} As dificuldades ainda eram grandes, pois não havia solução técnica para muitos dos problemas enfrentados no sistema orgânico de produção. Mas o estímulo da ação individual do produtor desafiante motivou certas habilidades sociais dos cafeicultores locais e aglutinou o interesse em torno de ações coletivas, a começar pela necessidade de organização.

Não demorou muito para que Machado se tornasse um pólo gerador e difusor de conhecimento que transformou o município num centro de referência em cafeicultura orgânica. Contribuíram para isso não só a proximidade territorial, já que havia cafeicultores interessados de outras localidades, mas também a crença comum nos ideais da agricultura orgânica como estilo de vida, que conciliava o respeito ao meio ambiente e a valores espirituais. Além disso, os atores contavam com uma estrutura de ensino no local, que deu suporte a inúmeras atividades, e com uma grande capacidade de articulação e realização de parcerias com instituições fora do município (CAIXETA, 2003).

Em 1998 foi fundada a ACOB —Associação de Cafeicultura Orgânica do Brasil—, com sede em Machado, com apenas seis associados. {quotes} Em 2003 eram 54 associados, a maioria médios proprietários, além de duas associações de produtores familiares.{/quotes} O principal objetivo da associação é promover a cafeicultura orgânica no país, com ações coletivas como cursos, representação política, busca de novos mercados e marketing, com participação em feiras nacionais e internacionais. Cada associado, entretanto, tem suas próprias estratégias de marca e de comercialização.

Alguns deles, a exemplo da Fazenda Jacarandá, conseguem exportar o café orgânico preservando sua identidade. É o caso de Alex Nannetti, segundo colocado do concurso Cup of Excellence da BSCA —Brazil Specialty Coffee Association— em 1999, que vende o café torrado e moído para a Inglaterra com sua foto e a marca Sítio do Tileco, o nome de sua pequena propriedade em Machado. Outro exemplo é o da UNICOM —União de Cafeicultores Orgânicos de Machado—, uma empresa criada para viabilizar as exportações de sete produtores da família Franco Caixeta. O café solúvel é vendido no Japão com a marca Saty, e leva a foto de Ivan Caixeta, um dos produtores.

Há grande comunicação entre os associados da ACOB para troca de informações. Definiram e adotaram um código de conduta, que estabelece tanto padrões técnicos, como o estímulo à arborização dos cafezais, quanto medidas para melhorar a vida dos trabalhadores não previstos na legislação trabalhista —como transporte, lazer e o fornecimento de um local com sombra para as refeições. Segundo PEDINI (2003), os cafeicultores orgânicos tiveram alguma participação na construção dos padrões para certificação destinados ao mercado interno, porém a influência na elaboração dos padrões internacionais é praticamente nula .

{quotes} A associação tem demonstrado uma grande capacidade de articulação e mobilização de recursos em várias esferas, seja com organizações locais, regionais e de âmbito nacional e internacional .{/quotes} No âmbito local conseguiram o apoio da ESACMA —Escola Superior de Agricultura e Ciências de Machado— e da EAF —Escola Agrotécnica Federal de Machado—, que foram pioneiras no oferecimento de cursos de cafeicultura orgânica em nível superior e médio, respectivamente. A colaboração destas escolas foi fundamental para motivar a construção de conhecimento técnico, cedendo áreas para experimentação, instalações, professores e equipamentos para os cursos de curta e longa duração, como de arborização de cafezais e de especialização em cafeicultura orgânica, promovidos pela ACOB, que contaram com a participação de alunos não só de Minas, mas também de outros estados.

Além da capacitação, a Escola Agrotécnica sediou em 2000 a I Conferência de Mercado Justo e Café Orgânico, patrocinada pela Organic Coffee, que reuniu grupos de consumidores japoneses, produtores e pesquisadores de vários estados e de outros países das Américas Central e do Sul. Também com o apoio da ACOB, a escola presta outros serviços à comunidade, relacionados à cafeicultura orgânica —não exclusivamente, mas sobretudo, a familiar. Desde a conferência passou a assessorar alguns grupos na comercialização.

cafe_organico_brasil_2Um projeto de estruturação tecnológica teve como foco a capacitação dos alunos e a prestação de serviços no processamento do café, viabilizados a partir de 2002, quando foram inauguradas suas unidades próprias de re-benefício, e de torrefação, moagem e embalagem a vácuo, por meio de convênios intermediados pela ACOB com a Fundação Banco do Brasil, a Fundação Vitae e o MEC —Ministério de Educação e Cultura.

Um desdobramento deste projeto vem atender a uma reivindicação antiga do setor cafeeiro, cujo foco é criar uma marca própria de café orgânico torrado e moído familiar brasileiro com origem definida. O carro chefe desta proposta é a produção da COOPFAM —Cooperativa de Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região —, cuja produção preenche todos os requisitos de qualidade material e simbólica. Além da excelente qualidade física e sensorial, o café destes produtores é certificado como orgânico e Fairtrade.

 Doze das 75 famílias , que ainda eram consideradas ‘loucas’ pelas outras, começaram a se interessar pela agricultura orgânica e se converteram para esse sistema em 1996. Primeiro porque diante das dificuldades de sobrevivência, eles queriam continuar sendo agricultores e se recusavam a abandonar suas lavouras para procurar emprego na cidade. Além disso, acreditavam nessa alternativa, que além do retorno financeiro já experimentado pelos cafeicultores orgânicos de Machado, lhes dava grande satisfação pessoal: “criamos um ambiente gostoso e saudável para se viver, meus filhos podem brincar na terra à vontade, sem correr o risco de morrer por contaminação”, diz o presidente da cooperativa, Adauto Oliveira. Segundo ele, alguns anos mais tarde, “tinha muito ‘louco’ querendo entrar no sistema orgânico”, e o número de famílias que se converteram chegou a sessenta.

O contato dos agricultores com o movimento fair trade, cujo foco está na produção familiar, mas não necessariamente orgânica, já se iniciara em 1992. Apesar de certificados e de preencherem os requisitos de qualidade da bebida, os agricultores da associação só conseguiram vender a partir de 1998, quando a procura pelo café socialmente justo, além de orgânico, começava a aumentar. A primeira exportação de café Fairtrade orgânico ocorreu em 2002, com a certificação orgânica da BCS.

Mesmo para os cooperados que ainda são convencionais, a comercialização no mercado solidário tem sido bem mais favorável . A maior compensação financeira, contudo, vem acompanhada de outros benefícios na área social. Uma das regras da certificação Fairtrade exige que uma parcela do prêmio —US$ 25 para os produtores convencionais e US$ 20 para os orgânicos— precisa ser necessariamente aplicada em investimentos sociais definidos pelos próprios cooperados . Tais investimentos foram revertidos na construção de um armazém para o café e num programa de inclusão digital, inicialmente destinado aos filhos dos cooperados, mas com possibilidade de extensão para outras crianças do município. Esperam com isso mudar o perfil dos produtores, facilitando o acesso à internet e a outros mecanismos que aumentem seu nível de informação.

{quotes} Os agricultores sentem-se mais valorizados e muito mais responsáveis por participarem de um mercado diferenciado, além de cuidarem com mais carinho da produção, pois segundo Adauto “o mercado solidário não faz caridade, tem que ter qualidade”. {/quotes} A proximidade territorial e os laços de identidade comuns permitem que a cooperativa de Poço Fundo colabore com outras organizações de produtores familiares, como a de Campestre, um município vizinho a Machado, sobretudo na troca de experiências sobre a parte técnica e a certificação.

Porém, os agricultores de Poço Fundo querem mais. O próximo passo é procurar agregar mais valor e obter margens maiores, com a torrefação, moagem e embalagem do café para ser exportado com uma marca própria com a identificação familiar da origem. Os produtores chegaram a essa conclusão depois que o presidente da cooperativa participou da Feira Sana, uma feira de produtos orgânicos e solidários realizada em Bolonha, na Itália. Lá ele constatou não só a ótima aceitação que o café de Poço Fundo teve durante a degustação dos participantes, como também as margens que são incorporadas pelos torrefadores europeus.

 Se o café de Poço Fundo é vendido torrado e moído na Itália por R$ 40 ou R$ 50 por quilo, o agricultor só recebe o equivalente a R$ 10. {quotes} Ele argumenta que “se há justiça no mercado solidário é mais do que justo que o produtor ganhe mais, e não o torrefador... e queremos que nosso café tenha uma identidade própria, que seja reconhecido como o café orgânico dos agricultores familiares de Poço Fundo, no Sul de Minas”. {/quotes} Para ele, a tecnologia para o processamento industrial já existe na Escola Agrotécnica, e é só uma questão de aprofundar os contatos que foram feitos com organizações européias e adequar o ponto de torra ao gosto do consumidor.  

 

Nada disso seria possível, contudo, sem o suporte de uma rede de cooperação que inclui parcerias com a ACOB, a Escola Agrotécnica Federal de Machado e o MDA —Ministério do Desenvolvimento Agrário—, entre várias outras organizações que incluem, por exemplo, a DIAFAB —Delegação Italiana da Agricultura Familiar Brasileira—, com sede em Milão.

Enquanto não conseguem imprimir a identidade ao seu produto, o café de Poço Fundo está sendo vendido para a Dinamarca e os Estados Unidos. Conforme CI (2005), um contrato de dois anos com a Exprinsul, uma grande exportadora do sul de Minas, vai colocar o café da cooperativa na rede Dunkin’ Donuts, para compor o blend do expresso que oferece em suas lojas. A empresa é a maior varejista de café no mercado norte-americano, com vendas que alcançam 2,7 milhões de xícaras diárias, o que representa 63% de sua receita anual.

Nesse caso, porém, em que predominam os padrões de certificação orgânica e Fairtrade, que garantem a presença de atributos simbólicos relacionados a formas sustentáveis de produção e comercialização, mesmo com os benefícios para os produtores e para a comunidade, a origem e a identidade dos ‘agricultores orgânicos familiares de Poço Fundo no Sul de Minas’, não têm visibilidade. Ao contrário de produtores de Machado, o objetivo dos agricultores da COOPFAM de serem também reconhecidos por sua identidade ainda está sendo construído.

Os laços de identidade dos desafiantes —os cafeicultores orgânicos de Machado e Poço Fundo— estão vinculados à adoção de sistemas orgânicos como um estilo de vida, de caráter ideológico, dentro de uma nova ética de produção e comercialização, associadas a iniciativas de promoção da origem, estimuladas a partir de atores com visões de mundo vindas de fora da região. A identidade territorial está sendo construída em Machado e Poço Fundo em função de laços de proximidade e de crenças comuns, que influenciam as habilidades dos atores locais, sobretudo nas ações de cooperação —não só dentro como fora do território. Estes laços caracterizam sistemas diferenciados que desafiam, mas ao mesmo tempo convivem, com a heterogeneidade presente na ampla demarcação geográfica do Sul de Minas. Porém, o reconhecimento dos atributos simbólicos está sob o controle de padrões internacionais de certificação orgânica. Os agricultores familiares de Poço Fundo têm também a certificação Fairtrade, que, ao contrário dos padrões orgânicos que privilegiam a apropriação individual, permite que os benefícios tenham uma abrangência mais coletiva.

Maria Célia Martins de Sousa é doutora em Ciência Ambiental, Pesquisadora do IEA – Instituto de Economia Agrícola, Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Brasil.  Este artigo parte da tese de Doutorado da autora: Cafés sustentáveis e denominação de origem: a certificação de qualidade na diferenciação de cafés orgânicos, sombreados e solidários (2006).

BIBLIOGRAFIA

CAIXETA, Ivan. Entrevista realizada com o cafeicultor, professor da ESACMA – Escola Superior de Agricultura e Ciências de Machado e ex-presidente da ACOB – Associação de Cafeicultura Orgânica do Brasil em 11/11/2003, em Machado – MG.

CI. From bean to cup: how consumer choice impacts upon coffee producers and the environment. London: Consumers International, 2005. 64p.

FRANCO, Francisca. Entrevista com a viúva do Dr. Carlos Franco, pioneiro da cafeicultura orgânica no Brasil, realizada em Campinas, em 18 de outubro de 2005.

NAKAMURA, Ryuishi. Conceitos e filosofia do mercado justo. Palestra proferida na I Conferência Internacional sobre Mercado Justo e Café Orgânico. Machado, 31/3 a 2/4/2000.

OLIVEIRA, Luis Adauto. Entrevista realizada com o então diretor comercial da Associação de Pequenos Produtores de Poço Fundo, e atual presidente da COOPFAM em 12/11/2003, em Poço Fundo – MG.

PEDINI, Sergio. Entrevista realizada com o professor da Escola Agrotécnica Federal de Machado em 12/11/2003, em Machado – MG.

 
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