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Enquisas

Para superar a crise...
 
As Gándaras de Budinho e Ribeiras do Louro PDF Imprimir Correo-e

foto_2_lagoa_de_budinho.jpgEsta chaira assolagável constitui, junto com a Terra Chã e a Límia, uma das três zonas húmidas interiores mais importantes da Galiza. É também un dos nossos espaços naturais mais ameaçados. Um artigo de Xián Nieto, licenciado em Ciencias Ambientais e sócio de Verdegaia.

O rio Louro é um dos últimos afluentes do rio Minho antes da sua desembocadura no oceano Atlântico. Nasce no monte da Serra, no concelho do Paços de Borvém, e discorre em direcçom Sul entre a serra do Galinheiro, ao Oeste e o monte Saramagoso e o faro Budinho ao Leste. No seu tramo baixo, tras passar a vila do Porrinho, forma uma ampla chaira assolagável conhecida como as Gándaras de Budinho e Ribeiras do Louro.

Uma pequena parte desta chaira, a mais próxima ao rio, foi proposta no ano 1999 para formar parte da Rede Ecológica Europeia Natura 2000 (1). A área natural protegida conta na actualidade com 727 hectares distribuídos entre os concelhos do Porrinho, Salzeda de Caselas e Tui; e constitui, junto com a Terra Chã e a Límia, uma das três zona húmidas interiores mais importantes da Galiza.

A transformaçom do val no século XX

Durante a primeira metade do século passado as Ribeiras do Louro apresentavam uma paisagem de campos de cultivo, lagoas (2), gándaras e pequenos bosques nas zonas infestas e avessias. Apenas o caminho de ferro e a estrada que unia Porrinho e Tui rachavam o mosaico.

foto_1_vale_da_lourinha.jpgPioneiros na transformaçom da paisagem tradicional forom os campos de experimentaçom e as instalações que a fábrica Zeltia construiu a começos dos anos cincuenta nos terreos que hoje ocupa o Polígono Industrial da Granja.

Em 1964 o Governo aprova a criaçom do Polo de Promoçom e Desenvolvimento Industrial Vigo-Porrinho. Uma das suas actuações mais destacadas foi a aprovaçom dous anos mais tarde do Plano Parcial de Ordenamento do Polígono Industrial das Gándaras. A planificaçom desta área industrial encol das branhas viu-se favorecida polas condições topográficas do lugar e a presença de vinte e seis indústrias na zona.

A progressiva implantaçom industrial, que ainda continua na actualidade, levou aparelhado o crecente abandono das actividades agropecuárias tradicionais. A junçom destes dous factores provocou a modificaçom total da paisagem. Aterrarom-se lagoas e gándaras, canalizarom-se e desviarom-se rios e regatos, ocuparom-se turfeiras e contaminarom-se as águas. Namentres, os campos que iam sendo descuidados, eram recolonizados por bosques de ribeira.

No entanto, foram muitos os que se decataram da riqueza da flora e fauna das Gándaras chegando a propor no parlamento espanhol primeiro e no galego despois, a sua declaraçom como parque natural.

Mas, com pequenas modificações, as actividades extractivas de áridos e sobretudo, a ocupaçom industrial continuarom por toda a chaira. Exemplo disto foi a construçom nos anos noventa do Polígono Industrial da Granja que supuxo a práctica eliminaçom das zonas húmidas do Leste do vale e dalguns jazigos pré-históricos ali topados. Desta época data a construçom da autovia Porrinho-Tui que junto com a nova autoestrada cinguem a área protegida.

Os últimos anos: a Rede Natura

No ano 1999 a Conselharía do Ambiente incluiu 959 hectares das Ribeiras do Louro na proposta provisional das áreas naturais galegas para fazerem parte da Rede Natura.

Esta proposta, que implicou declarar "As Gándaras de Budinho" como Lugar de Importancia Comunitária (LIC), foi desvirtuada com a supressom nos anos seguintes do 25% da superfície inicial até ficar nos 727 hectares actuais, o que está a gerar a eliminaçom de áreas de alto valor ecológico que, na sua meirande parte, forom reclassificadas para uso industrial.

Mália tudo, nas Gándaras permanecem senlheiros valores naturais e culturais que analiso de seguido.

Os habitats e a flora

Nas Gándaras de Budinho há 5 habitats declarados de Interesse Comunitário (3), dous deles considerados Prioritários (4):

-Uzeiras húmidas atlânticas de zonas mornas de Erica ciliaris e Erica tetralix (Código 4020* da Directiva 92/43/CEE).

Som conhecidas popularmente como gándaras. Em tempos deveu ser o habitat mais extenso da chaira, do que dá fe a existência de vários topónimos com este nome nas paróquias de Pontelhas, Átios, Guilharei e Budinho. Este último acabou por alcumar toda a área natural.

Na altura é um dos habitats mais escassos e indefensos ante o avanço da ocupaçom industrial, a pesar de estar catalogado como prioritário pola Uniom Europeia e de albergar várias espécies de plantas ameaçadas como o tojo português (Ulex micranthus) e o rabunha lobos (Genista berberidea) e, muito especialmente, Succisa pinnatifida, catalogada em perigo de extinçom.

-Depressões sobre substratos turfosos do Rhynchosporion e águas oligotróficas com contido mineral muito baixo de chairas areosas (Littorelletalia uniflorae) (Códigos 7150 e 3110 da Directiva 92/43/CEE).

foto_3_populaom_de_rorelhas.jpgEstes dous habitats caracterizam as duas turfeiras que ainda som conservadas: a do Cerquido e a de Alvelos. A presença destes ecossistemas -próprios de climas frios e húmidos- a 10 metros sobre o nível do mar e numa zona de transiçom entre o clima atlântico e o mediterrâneo é uma das características mais singulares e valiosas de toda área protegida.

Como no caso das gándaras, as duas turfeiras tenhem perdido mais da metade da sua superfície original e hoje em dia sofrem uma forte degradaçom pola falta de água no chão. No entanto é neste habitat onde se conserva o maior número de espécies de flora ameaçada como o bunho de branha (Carex durieui), a erva cheirenta (Arnica montana), as rorelhas (Drosera sp.) e duas mais catalogadas em perigo de extinçom: Genista ancistrocarpa e Rhynchospora modesti lucennoi.

-Lagos eutróficos naturais com vegetaçom Magnopotamion ou Hydrocharition (Código 3150 da Directiva 92/43/CEE).

Trata-se do ecossistema mais reconhecido da área natural graças à famosa lagoa de Budinho. Porém, acha-se noutros regos, barreiras (5) e lagoas sendo a mais destacada a do Fial. Algumas espécies comuns onde há certa fondura som o ambroinho de rio (Nymphaea alba) e a espiga de água (Potamogeton natans), namentres a espadana (Typha latifolia) domina a beira lacustre.

-Bosques aluviais de Alnus glutinosa e Fraxinus excelsior (Alno-Padion, Alno incanae, Salicion albae) (Código 91E0* da Directiva 92/43/CEE).

Estes habitats som conhecidos como bosques de ribeira ou, mais concretamente, como ameais pola abundância do amieiro (Alnus glutinosa). Ao igual que as gándaras, está considerado como habitat prioritário pola Uniom Europeia, no entanto e ao contrário que aquelas, a sua extensom non fixo mais do que medrar ao mesmo ritmo que ia sendo abandonado o cultivo das leiras.

Outras árvores características deste bosque som os salgueiros (Salix sp.) e os freixos (Fraxinus sp.). Os primeiros desenvolvem-se em chaõs muito húmidos, aparecendo a caróm de rios e regatos. Os freixos, que nom precisam tanta humidade, situam-se na terceira linha, por tras de salgueiros e amieiros. Também existem plantações de choupos (Populus sp.), embora nom sejam árvores ventureiras como as outras.

O bosque ribeirego, um dos meirandes da Galiza, ocupa as beiras do rio Louro e os seus afluentes além de amplas zonas chairegas entre as que destacam três: o ameal de Alvelos, o das Travessas e o situado ao Norte da lagoa de Budinho. Uma espécie de flora muito comum nos bosques de ribeira das Gándaras de Budinho é o dentabrú (Osmunda regalis) que desenvolve uma curiosa adaptaçom: un tronquinho que lle permite zafar dos assolagamentos.

Em chãos mais secos os ameais som substituídos polas carvalheiras que, a mais do dominante carvalho (Quercus robur) e da escassa sobreira (Quercus suber), contam con arvorinhas como o loureiro (Laurus nobilis) e o estripeiro (Crataegus monogyna), gaveadoras como a hedra (Hedera helix) e outras mais pequenas como a gilbarbeira (Ruscus aculeatus). Outros ecossistemas comuns nas Gándaras som os eidos e os cultivos florestais de pinheiros e eucaliptos.

A fauna

Há vinte e cinco anos o censo de vertebrados das Gándaras ultrapassava as duascentas espécies. A degradaçom sofrida desde aquela provocou a desapariçom de muitas delas e a míngua doutras em tempos avondosas.

A perda de extensom e fondura da lagoa de Budinho é a causa principal da fugida de várias espécies de aves como a galeirom (6) (Fulica atra) e o pato trombeteiro (Anas clypeata); e da reduçom de outras como o mergulhom pequeno (7) (Tachybaptus ruficollis) e a garça pequena (Ixobrychus minutus). Também liscou a cegonha e possivelmente o sapo de unha negra (Pelobates cultripes).

Porém, a riqueza faunística segue a ser notável. Existem três espécies catalogadas como vulneráveis no Catálogo Galego de Espécies Ameaçadas: a saramaganta (Chioglossa lusitanica), a ra patilonga (Ra iberica) e a toupeira d'água (Galemys pyrenaicus); e outras tantas catalogadas em perigo de extinçom: a cerceta real (8) (Anas crecca) como nidificante, a escrevedeira dos caniços (Emberiza schoeniclus subsp. lusitanica) e o sapoconcho comum (Emys orbicularis), que conserva nas Gándaras a principal populaçom galega.

Outras espécies interessantes presentes na área natural som o esganha gata (Gasterosteus aculeatus), a lontra (Lutra lutra), a garça real (Ardea cinerea), o gavião (Accipiter gentilis), o minhato (Buteo buteo), o frango d'água (Rallus aquaticus) o picapeixe (Alcedo atthis), a pilhara areeira (Charadrius dubius), a andorinha das barreiras (Riparia riparia) ou a vacaloura (Lucanus cervus).

O património cultural

Som poucos os elementos pré-históricos que nom forom estragados nos últimos quarenta anos. O jazigo paleolítico das Gándaras de Budinho, prospectado em 1963 e um dos mais importantes achádegos desta época na Galiza, apenas mantém uma pequena superfície, a pesar de ter sido nomeado em 1997 Bem de Interesse Cultural.

foto_4_ponte_das_febres.jpgAs sete mámoas catalogadas no vale forom destruídas nos últimos vinte anos, bem pola ocupaçom industrial, bem pola execuçom de aterramentos ilegais. Primeiro eliminarom-se as quatro do Couto Velho e a da Devesa do Rei e, recentemente, a do Monte Carrejom e a das Gándaras. A mesma sorte correu em 1967 a famosa Cista de Átios, um enterramento individual do que só se conserva o enxoval mortuório. A suas peças e outras topadas no jazigo paleolítico das Gándaras som expostas no Museu Quiñones de León em Vigo.

Existem vários castros ao longo do vale representativos da Idade do Ferro. Os mais achegados ao Louro som o de Castrelos, em Átios e o do Arraial, en Rebordáns. Ambos encontram-se muito alterados.

De épocas históricas cumpre destacar as construções destinadas a salvar os cursos fluviais e as utilizadas como passo de pessoas, gado e colheitas durante as cheias.

Bos exemplos das primeiras som as pontes da Veiga e da Madalena; e outras mais pequenas como a das Febres e a do Baranco. As segundas som as poldras (9); a mais longa é a que permite o passo entre a aldeia da Fernal e Orbenlhe.

Outras construções comuns som os cruzeiros e os moinhos. Entre estes últimos destaca o do Louro, com as suas três mós.

 O património cultural completa-se com o Sendeiro das Greas e o Caminho Português que percorre de Sul a Norte a área protegida.

Presente e futuro

Os muitos problemas que levam padecendo nos últimos tempos as Ribeiras do Louro ponhem em sério perigo a sobrevivência a meio prazo dos principais valores existentes. Esquematicamente cumpre assinalar as seguintes eivas:

-Reduçom da superfície declarada como LIC:

Ano 1999: 959 ha (Ordem do 28 de Outubro)

Ano 2001: 839 ha (Ordem do 7 de Junho)

Ano 2004: 727 ha (Decreto 72/2004 do 12 de Abril)

 

-Perda de habitats por alterações externas:

Importante presença de espécies de flora (10) e fauna (11) invasora.

foto_5_vertido_no_bosque_de_ribeira.jpgProgressiva degradaçom de ecossistemas próximos ao LIC (12).

Alteraçom orográfica do vale, principalmente pola execuçom de aterros.

Alteraçom do régimem hídrico: canalizações e aterros.

Arrastos de sólidos procedentes de pedreiras, barreiras, estradas de terra e montes ardidos.

Contaminaçom: vertidos sólidos e líquidos (13).

Ruídos provocados polo tránsito rodado e as instalações industriais e lúdicas.

-Ausência de gestom:

Modificaçom arbitrária das estremas do LIC.

Inexistência dum Plano de Ordenamento dos Recursos Naturais (PORN).

Falta de recursos humanos.

Ausência de actividades educativas e divulgativas regulares (14).

Planificaçom de novos projectos degradadores (15).

Falta de interesse na execuçom de planos de recuperaçom (16).

Sob este panorama e logo duma década desde a proposta de inclusom na Rede Natura europeia, o futuro das Gândaras de Budinho fica no ar. A viabilidade da área natural dependerá de que se rendibilize social, económica e ambientalmente mas polo de agora nenhuma administraçom pública quer saber rem.

Xián Nieto González é sócio de Verdegaia.

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Referências

(1) A Rede Natura é uma Rede Ecológica Europeia de espaços protegidos cujo objectivo é manter a diversidade biológica mediante a conservaçom dos habitats naturais e as espécies de flora e fauna silvestres consideradas de Interesse Comunitário.

(2) A construçom de barquinhas para navegar, caçar ou pescar e a denominaçom popular de "mar" fam-nos enxergar, sequer um bocado, as dimensões que pudo alcançar a lagoa de Budinho durante as invernias.

(3) Os Habitats de Interesse Comunitário som aqueles que se encontram ameaçados de desapariçom na sua área de distribuçom natural, bem apresentam uma distribuçom natural reduzida ou bem constitúem exemplos representativos dalgumas das cinco regiões biogeográficas que se acham em Europa: a alpina, a atlântica, a continental, a mediterrânea e a macaronésica.

(4) Como Habitats Prioritários catalogam-se aqueles de Interesse Comunitário que além de sufrirem a ameaça de desapariçom, a sua conservaçom for de especial responsabilidade por mor da importância da sua área de distribuçom natural no território europeio.

(5) As barreiras som grandes poças existentes no vale, fruito da actividade de extracçom de áridos que, tras o seu abandono, forom naturalizando devagar. Estes ocos mineiros, mália sua origem artificial som o ecossistema favorito dos sapoconchos.

(6) Localmente conhecido como demo negro.

(7) Localmente conhecido como fonducho.

(8) Localmente conhecido como charneco.

(9) As poldras som estruturas lineares de pedra que permitem atravessar a pé zonas a cotio assolagadas.

(10) Umas -como os choupos (Populus sp.) nas ribeiras do Louro e os piheiros (Pinus pinaster) e eucaliptos (Eucaliptus sp.) nas abas dos montes- som cultivadas para lhe tirar aproveitamento à madeira. Outras, como a robínia (Robinia pseudoacacia), a acácia (Acacia melanoxylon), a mimosa (Acacia dealbata), a tintureira ou bagueira moura (Phytolacca americana) e a cortadeira (Cortadera seollana), valem-se da sua grande capacidade colonizadora para se espalharem polo territorio.

(11) A tartaruga da Florida (Trachemys scripta), o visom americano (Mustela vison), a perca americana (Micropterus salmoides), o caranguejo americano (Procambarus clarkii), etc.

(12) Por exemplo, o novo PGOM do concelho de Tui, ainda nom aprovado pola Xunta, pretende transformar dúzias de hectares de Solo Rústico de Protecçom de Espaços Naturais em Solo Industrial. Estes terreos forom descatalogados da Rede Natura em 2004 a pesar de albergarem habitats prioritários ou serem atravessados polo Caminho Português.

(13) A posta em andamento da ETAR situada na Veiga do Louro e que tratará as águas residuais do Val da Lourinha adiou-se em várias ocasiões. Devera ter sido inaugurada em 2006.

(14) O prédio que ia albergar o Centro de Interpretaçom da Natureza foi rematado no ano 2002 e desde aquela abandonado. Nesta altura apresenta um estado ruinoso.

(15) Como a nova linha do comboio de alta velocidade traçada polo meio de LIC.

(16) Alguns deles desenhados há mais de 15 anos ainda nom forom executados.

 

 

 

 
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